Reportagem

Relíquia medieval! Confira como é a Semana Santa em Assis, terra de São Francisco na Itália

A chuva caía forte na noite daquela sexta-feira. Parecia ter sido encomendada para deixar o clima mais propício para a ocasião. O frio também era intenso em Assis, na Itália, mesmo em plena primavera. Muitos peregrinos esperavam na porta da Catedral de San Rufino fortemente agasalhados, tentando se proteger da água gelada. Os casacos, entretanto, contrastavam com os pés descalços no chão de pedras milenares. O estranhamento era inevitável, mas apenas até o olhar cair na enorme cruz de madeira apoiada ao lado.

Aquela não era uma noite comum. Era a noite de Sexta-feira Santa. Fiéis, peregrinos e turistas acompanhavam a missa na catedral, o início de um dos momentos mais fortes que este que vos escreve já presenciou: uma procissão para representar o momento em que o corpo de Cristo encontra a Mãe Adolorada que começa ali, em San Rufino, percorre as ruelas da cidade medieval até a imponente Basílica de São Francisco para, depois, retornar. Assista:

Tudo começa na Quinta-Feira Santa com a chamada Scavigliazione, a retirada do corpo de Cristo morto da cruz. A cerimônia acontece bem ali, na Catedral de San Rufino, e remonta a uma tradição da cidade desde o Século 13. Já na manhã da Sexta-Feira da Paixão, o corpo é levado em procissão à Basílica de São Francisco.

À noite, após a missa na Catedral, os casacos pesados que tanto chamaram a atenção saem de cena para dar início à encenação que todos aguardavam. Centenas de fiéis estão vestidos de soldados, centuriões e apóstolos, carregando cruzes e velas enquanto cânticos ecoam por toda Assis. Milhares assistem de olhos vidrados. E é aí que vem o detalhe que deixa tudo mais impressionante: as luzes de Assis são completamente apagadas e o caminho da procissão é iluminado apenas por velas, guiando o caminho da procissão em um retorno milenar ao passado.

O LEGADO

“Onde houver trevas, que eu leve a luz”, diz um dos versos da oração de São Francisco de Assis, um dos mais fortes, importantes e queridos santos católicos. Diante do espetáculo apresentado naquela Sexta, é difícil dizer se a escuridão tomava conta da cidade natal do protetor dos animais antes da sua chegada ao mundo, em 1182, mas que atualmente a luz domina a pequena Assis, na região da Úmbria, isso é inegável.

Não é preciso ser religioso fervoroso ou conhecer toda a história de Francesco Giovanni di Pietro Bernardone, futuramente Francisco de Assis, para sentir a espiritualidade presente em uma das mais belas cidades italianas e entender o quão especial ela é. Desde a localização privilegiada, no Monte Subasio, com seus muitos campos de oliveiras, passando pelas construções medievais, em um verdadeiro labirinto de estreitas ruelas feitas de pedras, nada é comum ou simplório em Assis.

Quase um paradoxo às crenças pregadas por seu filho mais ilustre, que abdicou das riquezas da família nobre e buscava o total desapego material. Filho mais ilustre, mas não o único importante nome para a Igreja. Assis também é o berço de Santa Clara, que viveu durante a mesma época de São Francisco e foi a cofundadora do ramo feminino da ordem franciscana e, posteriormente, Ordem das Clarissas.

A Basílica dedicada à santa em Assis, localizada a 350 metros da Catedral de São Rufino, contém várias relíquias pertencentes a ela, como roupas, mechas de cabelo e objetos pessoais. Nela ainda é possível ver o crucifixo pelo qual São Francisco teve a visão sobre sua vida espiritual.

PATRIMÔNIO

Para celebrar tamanha importância religiosa de uma mesma cidade, Assis ostenta a grandiosa Basílica de São Francisco que, desde 2000, faz parte do Patrimônio Mundial da Unesco. Uma construção iniciada em 1228, dois anos após a morte do santo, no alto da montanha, que pode ser avistada a quilômetros de distância. Uma paisagem que, sem dúvida, está entre as mais belas e impactantes da Europa.

O local é dividido entre Basílica Inferior e Basílica Superior e exibe inúmeras obras de arte, como afrescos atribuídos ao artista Giotto, pinturas de Cimabue e até objetos que foram de São Francisco. Mas é sob o altar-mor, na cripta, que estão os restos mortais do santo – descobertos apenas em 1818, quando as tropas de Napoleão já haviam caído e foi possível fazer uma longa e lenta escavação sob a Basílica. Na cripta, não há espaço para o turismo, apenas para a devoção e agradecimentos. O silêncio das rezas só é quebrado pelas moedas que caem nas caixas de doações em trocas de velas ou pelos passos daqueles que chegam e saem.

A imponente Basília de São Francisco, Patrimônio Mundial da Unesco, vista da simplória estrada que leva à cidade de Assis, na região de Úmbria. Conta-se que pouco antes de morrer, São Francisco abençoou Assis, tornando-a “cidade espiritual” ou “nova Jerusalém” para todos os séculos.

ALÉM DA RELIGIÃO

Tantos motivos religiosos, mais do que transformarem Assis em uma cidade sagrada, atraem milhares de turistas todos os anos em busca de conforto espiritual e de se aproximarem de São Francisco. Mas o importante é saber que a pequena vila medieval – facilmente explorada a pé – tem muito mais a oferecer. Da alta gastronomia às caminhadas pelas montanhas com mirantes que tiram o fôlego – no caso, duplamente, tanto pelas belas vistas dos campos quanto pelo esforço de subir o morro até os melhores pontos.

Da praça em frente à Basílica de Santa Clara, por exemplo, é possível avistar no alto da montanha a Rocca Maggiore, restos muito bem preservados de uma fortaleza construída para defender a cidade em épocas menos amigáveis. Há escadas e trilhas para chegar ao topo. A vista panorâmica por si só vale o esforço, mas nos finais de tarde as muralhas de pedra brilham em uma cor dourada difícil de explicar. Impressiona.

Este é a vista para a Rocca Maggiore da praça em frente à Basílica de Santa Clara. Acredite: vale o esforço de subir até lá para apreciar paisagens únicas não apenas de Assis, mas de toda a região.

Até o caminho para chegar a Assis é uma volta ao passado. A região da Úmbria, no centro da Itália, é uma importante rota que liga algumas das principais cidades do país, como Roma e Florença. Campos de girassóis, de oliveiras, castelos, fortalezas e igrejas nos flancos de altas montanhas margeiam quase toda a rodovia. Cidades que parecem cenários de séries ou filmes e transformam até a viagem, por si só, em uma experiência inesquecível.

O trajeto de Roma até Assis leva em torno de 2h15 de carro. De Florença, o percurso é de cerca de 2 horas. Muitos turistas, pela proximidade, escolhem Assis como uma parada pelo caminho. Apenas passar uma manhã ou tarde e cair na estrada novamente. Então aqui fica o melhor conselho sobre esta cidade: não faça isso. Fique pelo menos uma noite na terra de São Francisco. A cidade, ao anoitecer, está entre as mais aconchegantes do Velho Continente. E dependendo da ocasião, como a Sexta-feira Santa, tudo fica ainda mais arrebatador.

Entardecer em Assis é um espetáculo à parte graças à localização privilegiada da cidade, no Monte Subasio. Por isso, a dica é passar pelo menos uma noite por aqui e não apenas conhecer o local durante o trajeto entre outras regiões mais populares.

PORCIÚNCULA

Se a Basílica de São Francisco impera sobre Assis, é importante saber que a igreja originalmente fundada pelo santo não fica em sua cidade natal. Descendo a montanha, no vilarejo vizinho de Santa Maria degli Angeli, está a Porciúncula, a pequena capela que é o principal símbolo da Ordem dos Frades Franciscanos.

Foi aqui que São Francisco recebeu o seu chamado, mudou a forma de viver, pregou e morreu aos 45 anos. O emblemático cordão usado pelo santo está exposto ao lado da pequena capela. O local é tão sagrado que a Basílica de Santa Maria degli Angeli foi construída em volta da Porciúncula para protegê-la. O resultado é uma das maiores preciosidades do mundo religioso. Assim como a energia dentro da capelinha, inexplicável.

Poucos lugares são tão curiosos, e ao mesmo tempo tão emblemáticos e relevantes, quanto esta pequena igreja conhecida como Porciúncula. São Francisco a dedicou à Santa Maria dos Anjos e hoje ela está localizada dentro da grande Basílica que leva o nome da santa e que foi construída entre os séculos 16 e 17 justamente para proteger a pequena igreja. Afinal, são inúmeros os acontecimentos marcantes ocorridos aqui. A capelinha foi a segunda morada de São Francisco e onde ele recebeu o chamado divino. Também foi aqui, no domingo de Ramos de 1211, que ele recebeu a consagração da Santa Clara e deu origem à ordem das Clarissas. E onde, no dia 3 de outubro de 1226, São Francisco morreu.
A Basílica de Santa Maria degli Angeli foi construída a pedido do papa Pio V para proteger e Porciúncula e para acolher os tantos peregrinos que queriam conhecer os lugares que marcaram a vida de São Francisco.
  • ONDE FICAR:

– Hotel Ideale (Piazza Giacomo Matteotti, 1, Assissi, fone: +39 075 813570)

Fica na entrada da cidade, ao lado da Catedral de San Rufino, conta com estacionamento gratuito e tem vistas belíssimas dos campos. Café da manhã excelente.

Vista do quarto do hotel Ideale para a Catedral de San Rufino e para os campos de Assis
  • ONDE COMER:

Al Camino Vecchio Trattoria (Via S. Giacomo, 7, Assisi, fone: +39 075 812936)

Apesar do atendimento não ser excepcional, a comida é deliciosa e os valores justos. Existe um menu completo com entrada, prato principal e um acompanhamento por 15 euros.

Risoto de arroz negro com camarões da Trattoria Al Camino Vecchio
  • COMO CHEGAR A PARTIR DE ROMA:

De carro: pela estrada SS3.

De trem: Há opções da estação Termini com parada na estação Assisi. De lá, é preciso pegar a linha C do ônibus local até a estação P. Matteotti Assisi

Atenção: A Basílica de Santa Maria Degli Angeli fica a 600 metros da estação Assisi. Se a sua ideia é fazer um bate-volta, comece a visita por ela. Se for ficar em Assis, use os ônibus.

 

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Autores: Fábio Trindade e Tiago Stachetti

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